Deslivros:Biografia de um mineiro chileno, soterrado por 69 dias

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Prefácio[editar]

Com certeza você achou lindo né?! Turista... Duvido que você moraria aqui, já que achou tão lindo assim, sem a pornografia da internet, sem mercado por perto pra comprar umas batatinhas e sem farmácias para vender vaselina nos dias que a Ruanita se faz de difícil...

Meu nome é Alberto Iturra e antes de começar a fazer meu relato de vida, gostaria de deixar bem claro aos idiotas que não atentaram para o título deste livro, de que sou chileno, e minha alcunha de "mineiro" deve-se pela minha profissão, por trabalhar com minas (na exploração de ouro, não como cafetão de vadias). Ou seja, não sou um mané viciado em pão-de-queijo nascido em um estado caipira quase no centro do Brasil, com um jeitão esquisito por ser um mix de baiano, com paulista, carioca e goiano, simplificando, não sou de Minas Gerais, este lugar que concentra um monte de ser estranho que é um caipira-semi-corno-meio-preguiçoso-pouco-estressado-e-quase-malandro, que é a união das diferentes culturas que citei anteriormente.

Como um típico chileno, nascí pobre, feio e burro, tendo uma vida lamentável como qualquer outro conterrâneo do meu extenso país "slim". Por conta desses adjetivos lamentáveis que consistem em qualificação mínima, me restaram um leque muito limitado de opções profissionais, na qual poderia trabalhar como ordenhador de lhamas (principalmente as masculinas), pedinte ou minerador, na qual todas seriam exercidas no Deserto do Atacama, um lugar inóspito e distante da civilização, na qual o trabalho nas minas de carvão, ouro, zinco, estanho, estranho, explosiva e de diamantes oferecem mais recursos financeiros. Outras opções profissionais seria tentar a vida no Brasil, como "mula" para traficantes, enchendo o cú com papelotes de cocaína, flautista da Praça da Sé ou semi-escravo em alguma fábrica de tecidos ou confecção da C&A em São Paulo, mas para isso teria que juntar dinheiro nas minas do deserto para poder pagar a passagem até o Brasil.

De qualquer jeito meu destino tava traçado para uma existência miserável, já que no Brasil teria os bolivianos como concorrentes de peso em São Paulo, juntamente com os nordestinos brasileiros, que apesar de terem uma expressão verbal tão tosca quanto os chilenos, pelo menos não corriam o risco de serem deportados pela polícia, já que tavam no país. E de qualquer jeito, teria que passar pela mina para juntar uma grana nesta empreitada, já que nem o Paraguai se interesse em exportar suas tranqueiras chinesas para nós, dado a super-desvalorização da nossa moeda local (nem loja de 1,99 tem aqui), que usei intensamente como papel-higiênico nesses 69 dias miseráveis que passei soterrado.

Capítulo 1 - 1º Dia[editar]

Ruanita brincando de "pula-carniça" com a Carmenzita, minha cunhada. Como sentia saudades delas nesses dias de confinamento...

Como de costume, levantei antes do amanhecer e preparei meus equipamentos de exploração subterrânea após meu desjejum com carne de lhama. Não sem remorso, uma vez que se tratava de um parente distante da Juanita, minha companheira nas noites solitárias e frias do Deserto do Atacama.

Feito isso, reuní meu material de trabalho folhas de coca para "suportar a pressão atmosférica", um capacete de operário, que uso pelo fato de ser fã do Village People, pois só um idiota acha que esta merdinha vai trazer segurança, quando se tem toneladas de rocha sobre a sua cabeça diariamente, uma correntinha de Nossa Senhora de Guatalupe, pois como típico latino de expressão castelhana coloco este clichê de novela mexicana para dar ênfase no meu aspecto cultural, pois em igreja tem neste deserto, pois é deserto mesmo, além da minha marmita para minhas refeições lá no interior da mina (repito que é a parte interna da caverna subterrânea, não o útero de uma vadia típica do Brasil). Ou você acha que é fácil subir mais de um quilômetro pra fazer um intervalinho para almoço e depois voltar pra bater o cartão?!

Também fazem parte dos meus instrumentos de trabalho um martelo, uma picareta, uma lanterna, algumas pilhas para a lanterna e um saco de dinamites, que a contrário do Brasil que só vende isso com autorização do Exército, aqui nós compramos na feira-livre, como se fossem tomates sob o sol, podendo escolher pelo preço e tamanho. Quem tem mais dinheiro pode optar por uma granada, que apresenta mais versatilidade que dinamite, e apresenta efeito igual nas minas. Como assim você acha que falei besteira? É verdade, basta lançar esta porra que detona tudo! Eu é que não sou besta pra ver o estrago que faz! Saio correndo! Nascí pobre mas não nascí otário, como diria o filósofo Chalie Brown.

Lá no interior da mina (já sei, tá cansativo repetir piada, juro que não tenho Síndrome de Down), o engenheiro Ruan Carlos (outro nome clichê genuínamente latino), formado em uma Uniesquina do Brasil teve uma idéia genial que no fim das contas deu errado. Ele propôs que dinamitássemos a entrada da mina, pois assim iríamos finalizar nosso expediente em direção a saída da gruta, dizendo que trabalharíamos indo embora pra casa. Algo como visitar um cliente no caminho do serviço pra casa, evitando o desgaste de uma visita no dia seguinte.

O engenheiro preencheu toda a entrada da caverna com dinamites e procedeu a sua detonação, da qual nos vimos presos sem a possibilidade de sair sem ajuda externa. Tudo o que pensei quando isto ocorreu e me ví preso na caverna foi; MERDA! Pois era assim que poderia descrever a minha vida, principalmente neste momento. O infeliz do engenheiro afirma que é preguiça nossa, e poderíamos sair numa boa se trabalhássemos um pouquinho mais para destravar a caverna, dizendo que 800 metros de rocha sobre nossas cabeças é um mero detalhe, já que Maomé removeu uma montanha, segundo seu relato, sem ao menos ter um martelo.

Capítulo 2 - 2º Dia[editar]

No segundo dia é que percebí que além de uma merda tudo aquilo que aconteceu, constatei que FUDEU DE VEZ! Tava preso em um buraco extremamente profundo, literalmente no cú do mundo e incomunicável com a civilização (não que tenha muita neste deserto, mas ao contrário do que pensava, ficou muito pior!), com duas dúzias de marmanjos, todos cheirando intensamente suor, sem banho e apertados em uma cavidade com muito pouca ventilação, apenas suficiente para respirarmos e continuar vivo por algum tempo. Foi nessa hora que tive meu momento de iluminação semelhante ao Paulo Coelho, na beira do Rio Piedra. Simplesmente sentei e chorei.

Sei que foi muito EMO me recolher em um cantinho escuro para chorar por tá tristinhu, mas enfim, ninguém tava vendo mesmo e a saudade da Ruanita apertava. O meu medo era o dos meus colegas também terem saudades das suas respectivas "Ruanitas" e a consequencia que isso poderia ter pra mim. Ou seja, me sentia como um estuprador em uma cadeia brasileira, prestes a ser a mulherzinha do grupo...

Capítulo 3 - 3º Dia[editar]

No terceiro dia, o clima de tensão aumentou, tanto dos meus colegas de trabalho quanto a minha, pois a fome tava atacando, a comida e a água tava ficando escassa. Além disso, eu tinha outra preocupação além do desconforto da fome era as pressões no meu abdômen, indicando que a gravidade tava botando pressão no vácuo para evacuar.

Aquilo seria um inferno! Muito, mas muito pior do que qualquer cadeia brasileira, viaduto, terreno baldio ou leito do SUS, pois se eu soltar um barroso, irei infectar todo o ambiente em que estou com um péssimo cheiro, sem contar que terei que dormir muito perto das minhas fezes que verei se decompor, pois certamente ficarei preso por dias até ser resgatado, isso se é que venha alguém deste fim de mundo. Tendo em vista as condições do ambiente pelos meus flatos e dos meus colegas que mal conseguimos disfarçar neste ambiente escuro, protegido pelo anonimato onde um culpa o outro pelos gazes infectantes, aliado a catinga que tá brava na marmanjada aqui, prevejo que a coisa vai feder e muito nos próximos dias. E a minha dieta não tem contribuído muito para aliviar a situação, quando lembro da minha marmita que tinha ingerido, com ovo, batata-doce, repolho, feijão e torresmo.

Acho que nessas horas, só rezando mesmo para ajudar, para que o resgate seja o mais rápido possível...

Capítulo 4 - 4º Dia[editar]

Platão é que sabia das coisas...

No quarto dia, apesar da fome, sede e do cheiro insuportável (sempre tem um imprestável para cagar com tudo, e desta vez não fui eu que fez isso, mas foi o que aconteceu! Cagaram!), o grupo tava numa "nice", na qual as folhas de coca aliviou um pouco a pressão da galera, que passou a filosofar.

Neste momento, eu lembrei do "Mico da Caverna do Platão", em que um trouxa após viver anos em uma caverna, descobre que o mundo vai muito além daquela alienação subterrânea,mas ao invés de ganhar dinheiro com isso fazend os outros de trouxa, ele retornou para tentar libertar seus companheiros de caverna que o mataram. Enfim, tive diversas viagens doidas que pude compartilhar com meus companheiros de confinamento. Pena que não pudemos montar um luau, já que o pessoal não tava tão feliz assim, e uma fogueira tá fora de cogitação em um ambiente com pouca ventilação, sem contar que nesses ambiente tem algum infeliz para tocar Legião Urbana, aumentando a intensidade da tortura e das condições desumanas do ambiente.

Capítulo 5 - 5º Dia[editar]

Taí um clássico que temia vivenciar e passei perto, afinal, cordilheira na mina dos outros é refresco...

As folhas de coca acabaram, e com isso o pessoal começou a ficar estressado. Tava temendo uma versão remake do canibalismo da Cordilheira dos Andes como ocorreu anos atrás com a queda de um avião na cedeia de mntanhas, mas desta vez abaixo delas.

Bom, confesso que teve canibalismo entre alguns colegas soterrados na mina, mas felizmente todos estão vivos e gostaram do feito, que foi uma opção na hora da fissura, mas prefiro não entrar em detahes para não censurar este livro.

Teve colegas que afirmam que todo mineiro (incluindo os de Minas Gerais) já foi enterrado vivo, mas que nunca perceberam pois estavam de costas. Eu nego isso, pois Carnaval não conta...

Capítulo 6 - 6º Dia[editar]

Por ser o integrante mais velho do grupo, reclamei a liderança desta zona que virou a caverna, pois alguém precisava colocar ordem naquele recinto cheio de marmanjos chorões.

O engenheiro como encarregado de grupo no comando dos trabalhos de exploração reclamou a liderança do grupo, afirmando que era o único que tinha "diproma". Então pedí para que ele usasse este papel "tão importante" com o seu título de "doutor" e nos tirasse daquela situação em que nos colocou. Ele não teve resposta, dizendo que a faculdade não ensinou isso.

Tive que orientar aquele bando de tapados para escolher um lugar para urinar e defecar, mas aliviei com a galera propondo alguns joguinhos que não serviram de muita utilidade, como as cartas de baralho que não dava para serem vistas naquele escuro. Mesmo que tivéssemos alguma iluminação solar naquele fosso, não teria distração maior que satisfizesse aquela cambada do que as novelas brasileiras que o grupo assiste diariamente. Muitos estão aflitos pelo fato de não souberem quem matou Odete Roitman, pois estão perdendo os capítulos finais da novela.