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Jobson

O Homem de 249 Empregos

Botelho Kunavara



Prepúcio
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Acompanhe a rotina de Jobson, um brasileiro que fala "tauba" e "bassoura" e que, acima de tudo, trabalha em 249 empregos por semana, desde manicure até alfaiate, para sustentar sua família. Uma mistura de Seu Madruga com Joseph Climber. Um guerreiro que faz parte de uma grande parcela da população de classe baixa do Brasil, uma parcela que precisa trabalhar. E é isso o que Jobson mais faz, com muito amor e dedicação, para ganhar seu trocado.


Capítulo 1
Segunda-feira
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Ele vem andando por uma estrada de terra no pequeno município interiorano de Pato Preto, Minas Gerais. Caminhando a passos apressados, cotovelos flexionados na altura do peito, sua viseira falsificada da "Naike" lhe protege os olhos do sol putaquiparivelmente escaldante daquela manhã. Normalmente ele costuma usar um boné gasto vermelho virado para trás, mas aquela era uma manhã particular. Veste uma camisa regata da seleção brasileira comprada em camelô, além de um short puído e um par de havaianas velhas. Roupas que ele usa sempre, mas com a adição de uma plaquinha com o número 23 pendurado por um cordão no pescoço. Seu físico é esplêndido: magro, muito magro; os músculos definidos sob a pele carcomida. Ele seria um queniano se não fosse brasileiro, pois corria feito um naquela maratona. A Maratona de Pato Preto. E ele a venceu, como quase sempre fazia. Terminado seu primeiro emprego da semana, o de maratonista, ele voltou para casa, pois ainda lhe restavam mais 248 trabalhos a realizar.

Assim era Jobson, o homem que trabalhava em 249 empregos, incluindo bicos e freelas, para sustentar suas sete filhas gêmeas. Toda semana sua rotina se repetia, e toda segunda-feira, bem cedo pela manhã, Jobson corria a maratona de Pato Preto, então voltava para sua casa. Lá ele tinha que deixar tudo pronto para suas sete filhas passarem o resto do dia, pois o pai sairia para trabalhar e só voltaria para dormir. Porém, mesmo enquanto fazia papel de pai, ele trabalhava. Dentro de casa, Jobson era também pintor nas segundas-feiras, escultor nas terças, poetizo nas quartas, escritor nas quintas, consertador de celulares nas sextas e costureiro por encomenda nos sábados, tudo isso ao mesmo tempo em que cozinhava para as filhas.

Viúvo de uma esposa falecida, aquele mineirinho se virava como podia para dar de comer a Kelly, Kellyane, Keylla, Kallyne, Kalleny, Kallysto e Marcela, suas filhas, todas gêmeas como já foi dito. Pois bem, na cozinha de sua pequena e simples casa, ele tem uma tela branca diante de si, e com uma mão segura um pincel que espalha tinta guache por ela, terminando o que será uma pintura de um de seus primeiros amores de juventude. Na outra mão remexe a frigideira com ovos de suas galinhas, pois Jobson também era criador de galinhas, ou seja, dono de granja. Mais um emprego.

Após finalizar os ovos e a pintura, onde se via uma cabrita em um pasto verdejante, Jobson termina tudo que ainda tinha que terminar em casa e então sai direto para o campo do Sabiá, um terreno de chão batido onde times de várzea praticavam a boa arte do futebol brasileiro, aquele onde se passa 25% do tempo jogando e os outros 75% fazendo cera ou discutindo. Mas não Jobson, esse é um jogador exemplar. Aliás, "jogadores" exemplares, já que Jobson faz o papel dos onze jogadores mais o técnico do seu time. Doze empregos de uma vez só.

Já na partida, o mineirinho se prepara para cobrar o tiro de meta. Detalhe: Jobson não pode pegar na bola com as mãos, já que se considera um jogador de linha, então, quando faz defesas, ele nunca usa as mãos. Tiro de meta cobrado, Jobson corre do seu gol até a área do time adversário para receber a bola, matando-a nos peitos como um profissional. Bola dominada, ele dibra um, dibra dois e avança pela lateral esquerda. Como um felino sagaz, ele pula para escapar do carrinho que Valderley, um dos jogadores mal intencionados do time adversário, tentou lhe aplicar. Jobson é o Pelé brasileiro, um gênio do futebol. Já quase na linha de fundo adversária, ele faz um cruzamento para a área, a bola faz duas curvas, uma para fora e outra para dentro, enganando os jogadores de defesa que esperavam um chute fuleiro desses que só um bom jogador brasileiro pode oferecer.

Por incrível que pareça, Jobson já está lá na área adversária esperando a bola que ele mesmo cruzou. Quando a redonda chega, o mineiro trabalhador não pensa duas vezes e realiza uma bicicleta certeira, fuzilando o gol como um PM fuzila um marginal. Jobson nem comemora, só corre para o seu lado do campo, pois sabe que, antes que pudesse cruzar até o seu lado, os adversários rápida e maliciosamente reiniciariam a partida na iminência de encontrar o gol sem goleiro, o gato sem o cachorro, a criança sem mãe, o Jair sem o Luís Inácio. Mas Jobson é mais veloz. Brunim, atacante do time adversário, o vê correndo a meio caminho de chegar no gol para fazer seu papel de goleiro e então desfere uma bicuda na bola em direção à rede do mineirinho. Só que Brunim não teria sorte hoje. Jobson chega a tempo e intromete seu pé calejado na trajetória da bola para desviá-la. Uma defesa que só acreditaria quem visse.

Por fim o juiz apita o fim da partida, cumprimentando todos os jogadores e depois a si mesmo, pois ele também é um jogador, ele também é Jobson. Sim, Jobson é o juiz do jogo e o juiz do jogo é Jobson. E mais, ele é os quatro gandulas, os dois bandeirinhas e ainda é o técnico e o meia esquerda do time adversário. Mais nove empregos. Realmente um trabalhador, um daqueles que não se encontra em muitos lugares, menos ainda na Bahia.

Após o futebol, finda a manhã de Jobson, que nem para casa retorna, pois tem trabalho para a tarde. Filando sua marmita, ele espera pelo seu ajudante na obra onde trabalha como pedreiro. Mas logo se recobra de que é o próprio ajudante, por isso se apressa para começar o serviço. Analogamente à infalível técnica do seu futebol de chutar a bola e correr para recebê-la, Jobson joga tijolos para cima, escala os andaimes da construção com rapidez impossível e apara o material que vem caindo. Ele viola as leis da gravidade e, muito provavelmente, as do trabalho escravo também, mas isso não importa. Ele tem orgulho do que faz.

E orgulho é o que muitos pensam não existir quando se fala em prostituição, mas não para Jobson. Quando cai a noite e o seu trabalho como pedreiro se encerra, ele vai até o beco ao lado da obra, onde fica seu ponto de rodação de bolsa, tira tudo que precisa da sua maleta de ferramentas para se montar e o faz ali mesmo. Saindo para a calçada, ele agora é outra pessoa. Ele agora é Tiffany Kértrepa, conhecida carinhosamente pelos populares como "boca de nós todos". Naquela esquina onde ela, Tiffany, se encontra, ocorre a maior movimentação comercial de Pato Preto. Uns dizem que os serviços prestados pela senhorita Kértrepa são responsáveis por 13% do PIB da cidade.

Por fim, se encerram as atividades de Jobson no dia e ele volta para casa, mandíbula cansada, para ver suas filhas, tomar os remédios das suas DSTs e dormir um sono merecido. Ao todo foram 27 empregos só na segunda-feira, é difícil imaginar alguém que consiga isso, mas essa pessoa existe e só dorme o suficiente para recuperar as energias para mais um dia de trabalho puxado.


Capítulo 2
Terça-feira
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E lá vai ele, saindo da sua casa a caminho da Santa Casa de Misericórdia de Pato Preto. Tudo terminado em seu lar, inclusive o seu ofício matinal da terça-feira, esculpir em madeira, ele se sente tranquilo para salvar vidas. Salvar a vida, por exemplo, de um pobre trombadinha que pula muros para roubar galinhas ou então de um motoqueiro encachaçado que perde o controle do guidão e chapa a cara no poste. Sim, Jobson salva essas e outras vidas, e o faz não só como o competente enfermeiro que é, mas desempenhando o papel de um cirurgião, um fisioterapeuta, um psicólogo hospitalar, um assistente social, um paramédico e um motorista de ambulância. Haja conhecimento para essas 7 profissões.

Nesta manhã, em especial, perto do fim do expediente, Jobson recebe um paciente acidentado de carro. Um senhor de meia-idade que havia capotado seu veículo enquanto fazia baliza para estacionar. Um caso curioso. Mas o mais impressionante foi o estado em que o senhor chegou na Santa Casa: com as duas pernas e os dois braços desmembrados do corpo. Jobson teria que operar um milagre para salvar a vida desse homem.

E operou. Enjoou um pouco ao ver o estado do senhor, mas logo se recompôs. Após suturar seus membros de volta no corpo, Jobson percebeu que o homem havia perdido uma quantia bastante expressiva de sangue, precisando então de uma transfusão. Mas a Santa Casa não tinha mais bolsas de sangue, aquele paciente iria morrer ali... não, não iria. Jobson é O-, o tipo sanguíneo que pode ser doado para todos os outros. O mineiro, num ato heroico, extrai o equivalente a 4 litros do seu próprio sangue. Quase desfalecendo, ele realiza a transfusão e salva a vida daquele senhor, que agora tem AIDS, mas Jobson não diz isso a ele. Assim se encerra uma das suas manhãs mais exaustivas na Santa Casa.

Pois bem, chegado o meio-dia, Jobson agora vai até a autoescola de Pato Preto. Não para aprender, mas para ensinar, pois este mineirinho é um exímio motociclista. Ademais, Jobson aproveita que tem sob seu domínio uma potente Pop 100 e acopla, na garupa da moto, uma caixa de isopor com os dizeres "iMerenda", onde leva lanches para entregar. Ele também é entregador por aplicativo. Mas não só isso, trajado com um colete fluorescente, Jobson também, ao mesmo tempo em que ensina a dirigir e entrega comida, é mototáxi. De uma só vez ele leva uma pessoa até seu destino como mototáxi, com a pessoa dirigindo, pois ele tem que ensinar essa pessoa a dirigir durante o trajeto, e ainda entrega a merenda encomendada a ela quando chegam lá. Portanto, essa pessoa é passageira, aluna e cliente, tudo ao mesmo tempo. Que gênio é esse Jobson, hein! 3 empregos numa tacada só.

Quando finaliza seu expediente como um motoboy multifacetado, já são quase seis horas da tarde e uma última leva de empregos aguarda Jobson no Salão da Jéssica. Lá ele corta cabelo, limpa cabelo do chão e ainda arruma um tempo para pintar as unhas das patroas que frequentam o lugar. Um cabelereiro, um faxineiro e um manicurista/pedicurista. Jobson já até foi convidado pela dona Jéssica, a dona do salão, para trabalhar como depilador num espacinho que ela tem por ali, mas recusou por temer que sua masculinidade exacerbada pudesse interferir no tratamento da intimidade alheia. Aliás, como foi dito antes, Jobson se prostitui homossexualmente, mas isso não quer dizer que sua virilidade deixou o corpo. Muito pelo contrário. Segundo ele mesmo concluiu, ficou até mais macho depois de começar a dar ré. Como diz o ditado: é dando que se recebe.

Mesmo só trabalhando em três empregos no salão, Jobson faz muito mais do que se espera de um cabeleireiro comum. As chapinhas que ele faz não se desfazem nem com o mais forte dos torós. Os seus tingimentos são tão bem feitos que você pensaria que a cliente que ele pintou o cabelo de azul na semana passada havia nascido com o cabelo daquela cor. Nas mãos de Jobson, as pontas não se duplicam. Nas mãos de Jobson, o frizz não se perpetua. Nas mãos desse mineirinho, uma tesoura é capaz de fazer de cabelo uma torre Eiffel, um helicóptero, uma bofetada negra e até aquele que é o mais difícil em termos de técnica, o tsunami. Ainda mais, Jobson é capaz de fazer o navio de cabeça para baixo com suas 1500 pessoinhas de cabelo. E assim encerra sua terça-feira de labuta com 14 empregos trabalhados.


Capítulo 3
Quarta-feira
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Quarta-feira, dia de cachoeira. Mas antes, Jobson se embrenha na arte da poesia, uma arte que para ele é das mais íntimas e profundas, na qual se dedica ao máximo, pois é um poeteiro nato. Em seu caderno Foroni de arame com 96 folhas e um unicórnio rosa na capa, sob o título de "Os Pensamento Meus", seu mais novo poema, desenha a seguinte figura:

Boneco-palito.jpg

É isso aí que você viu, ele não escreve poemas, ele desenha poemas. Na verdade, seus poemas eram para ser versos mesmo, mas Jobson não foi alfabetizado quando criança, portanto nunca aprendeu a escrever, então ele só desenha. Nesse pique, o mineirinho já publicou cinco livros de poesias desenhadas. Um sucesso em Pato Preto e adjacências. Agora, terminado seu ofício na poetagem, ele sai de casa, deixando suas filhas com tudo o que precisam para passar o dia, e ruma para o Salto do Condenado, a maior cachoeira de Pato Preto. Um local que é responsável por trazer turistas até de Belo Horizonte para a pequena cidade do interior. Sabendo disso, Jobson há muito tempo começou a aproveitar a freguesia de banhistas da capital para fazer seu nome e ganhar um troco.

Chegando no Salto do Condenado, via-se várias dezenas de pessoas se divertindo. Em especial, um pequeno menino, mais ou menos desse tamanho assim, pulava de um tronco caído na margem da cachoeira direto na água, dando umas cambalhotas no ar, e saía de peito estufado. Percebia-se que o guri estava tentando chamar atenção, e até conseguia. Foi quando o trombadinha escorregou no tronco pouco antes de conseguir pular e levou um belíssimo tombo. Todos que viram a cena cascaram o bico no mesmo instante. Diante das risadas, o menino, pobre coitado, saiu da água de cabeça abaixada e não pulou nem sequer mais uma vez durante o resto do dia. Jobson viu tudo aquilo e refletiu sobre o poder que uma boa humilhação tem para nos pôr em nosso devido lugar. Era impressionante.

Concluído isso, Jobson pensou que seria uma excelente ideia oferecer um lanche (vender, na verdade) àquele pobre guri – ou aos responsáveis por ele. Antes de alcançar o menino onde este estava, Jobson nota o som de um carro relativamente grande pela estrada que leva à cachoeira e percebe que os jurados dos JAPP (Jogos Aquáticos de Pato Preto) estão chegando. E ele é um dos maiores campeões dos JAPP. Então, como ele esperava, ia ter trabalho hoje. Vendedor de laches, saltador de trampolim ornamental, nadador de 100 metros com jacaré, mergulhador de combate, salva-vidas e pescador, tudo nessa ordem. 6 empregos, alguns de alta periculosidade, para uma só manhã. Na verdade são 7 empregos, porque Jobson, logo após ouvir o som do carro com os jurados dos JAPP chegando, se dá conta de que ele é o motorista do veículo.

Descendo do carro (uma caminhonete) e sendo acompanhado pelos três jurados, Jobson pega na caçamba dois sacos de salgadinhos Peta, uma espécie de salgadinho sem gosto, equivalente a um punhado de bastante nada, que serve para ocupar a mandíbula. Com os sacos sobre os ombros, um para cada, vai em direção ao menino que havia escorregado no pau. A sorte está do seu lado. Os próprios pais do garoto se aproximam de Jobson antes de ele poder dizer qualquer coisa e já arrematam dois sacos do salgadinho com gosto de vento. Logo mais, outras duas pessoas compram também, depois mais três e assim por diante. Quando enfim se iniciam os Jogos Aquáticos de Pato Preto, Jobson já está a postos, preparado para vencer. Os salgadinhos todos vendidos. Seu vestuário padrão (camiseta regata da seleção brasileira, short vagabundo, havaianas baratas e boné vermelho virado para trás) é substituído por um traje de mergulho de alta performance (camiseta regata da seleção brasileira, short vagabundo, havaianas baratas e touca de banho).

Ele já havia vendido seus lanches e dirigido a caminhonete dos jurados, agora vem a parte mais desafiadora: os JAPP. Apesar de ser o único competidor, ele se empenha em ser o melhor a qualquer custo. Corre a toda pelo tronco caído na margem da cachoeira (o trampolim que ele deve saltar e o mesmo que o menino pegou aquele quedão). Jobson chega no limite do trampolim (a tora caída) e pula com toda o vigor dos seus músculos em um salto giratório combinado a um mortal duplo. Ele cai de peito aberto na água, aquele tipo de queda que deixa até o sovaco vermelho de ardido. Mas Jobson não tempo para perder.

Assim que mergulha, já põe a cabeça para fora da água em um movimento calculado. Um jacaré cabuloso, que acordara com seu tibum, o espia com apenas um olhinho para fora da água. Iniciam-se os 100 metros com jacaré. Jobson nada velozmente pelo lago em direção à cachoeira, esta a uma distância de exatamente 100 metros. É um grande lago. No seu encalço vem o jacarezinho que o espiava, medindo aproximadamente 3,5 metros de comprimento. Como uma sereia, Jobson é liso em ambiente aquático. Quando atinge a cachoeira, sumindo atrás da água que cai e da espuma que se pronuncia, os jurados dos JAPP, em sua bancada, anotam anotações em suas cadernetas feitas para anotar. Agora, terminados os 100 metros com jacaré, Jobson dá início ao seu trabalho de combatente aquático, afinal, é importante ressaltar que havia, por ventura, um jacarezinho de 4,5 metros nadando livremente no lago. Um perigo aos turistas.

Jobson, escalado pela marinha brasileira como soldado das águas pluviais de mais alta patente de Minas Gerais, mais precisamente em Pato Preto, senta-lhe a porrada no jacaré. Tudo sob as profundezas do lago do Salto do Condenado, a mística cachoeira de Pato Preto. Após minutos tensos de luta subaquática e apreensão dos que observam pelo lado de fora, borbulhas surgem na superfície da água no centro do lago. De repente, o corpo desfalecido do jacaré, medindo cerca de 5,5 metros, emerge virado de barriga para cima, mas não para por aí. O corpo do bicho monstruoso continua a subir, como que levitando, acima da água. Parece mágica, mas não é, todos sabem que jacarés mortos não levitam. Quem vem embaixo do cadáver é Jobson, saindo das águas lentamente, empunhando o jacaré ao alto com a mão direita, como se fosse um troféu.

Já com meio corpo fora da água, ainda brandindo o horrendo réptil, Jobson levanta a mão esquerda, até então submersa, e o que vem agarrado a ela é ao mesmo tempo aterrador e milagrosamente emocionante. João Paulo, neto de dona Neide da rua de cima, de apenas 7 anos de idade, desaparecido há uma mês desde a última vez que havia ido no Salto do Condenado, é retirado dás águas mais profundas do lago e agora se encontra abraçado à mão esquerda de Jobson. Pois como já foi dito, o mineirinho também é salva-vidas e acaba de salvar um vida. Todos aplaudem à visão do jacaré descido na porrada e do menino salvo do afogamento. Os jurados continuam a anotar em sua cadernetas. Mas isso ainda não é tudo, pois Jobson é pescador.

Para finalizar, quando sai da água, ele traz, amarrado aos tornozelos, duas tarrafas cheias de atum azul e tilápia. Jobson é um pescador tão sagaz que consegue pescar até atum no lago de uma cachoeira no Brasil, mesmo o tal peixe não existindo nesse abiente. Então, como ato de encerramento dos JAPP e também dos trabalhos matinais de quarta-feira de Jobson, os jurados se preparam para revelar as notas do competidor. Jobson se aproxima da bancada e puxa uma cadeira para si, pois, antes que eu me esqueça de dizer, ele é um jurado. Enfim, três dos quatro jurados dá nota 10 para Jobson, somente um dá 9,5: o próprio Jobson.

Assim se encerra a manhã deste mineiro trabalhador, com 8 empregos concluídos na cachoeira mais o ofício de poetante/desenhista. Para o meio-dia e a tarde, Jobson faz várias coisas que não serão descritas nesta obra pois muito já se foi escrevinhado sobre a presente manhã. Entretanto, é importante dizer que ele trabalha mais 8 trabalhos até voltar para casa e dormir: marceneiro, gerente de banco e caixa de 6 supermercados diferentes. Com isso, ele trabalha 17 empregos na quarta-feira, um herói da mão de obra.

Capítulo 4
Quinta-feira
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Chegada a quarta-feira, pela manhã Jobson é escritor, mas como já foi dito que ele não sabe escrever, fica só no desenho. Quando termina, sai para um dia puxado em, incrivelmente, apenas um trabalho: o de caminhoneiro. Apesar de a discrepância na rotina entre os três dias anteriores (com muitos trabalhos) e este (com apenas dois) ser muito grande, o esforço exercido no seu caminhão é tão tanto quanto nos trabalhos de segunda, terça e quarta. Aliás, Jobson é um caminhoneiro tão excepcional que, se a Sula Miranda fosse homem, ela se chamaria Jobson.

O mais impressionante do dia de caminhoneiro de Jobson é que ele cruza o Brasil inteiro dentro de um período de 18 horas. De norte a sul, de leste a oeste, de dentro pra fora e de lá pra cá. Para fazer um trajeto tão exaustante como esse, ele não usa rebite, muito menos cocaína. A única substância que Jobson consome está em sua garrafa térmica de 2 litros: bastante açúcar com um pouco de café. A sua Kombi, modificada através de gambiarra, teve a metade de trás transformada em uma carroceria onde cabem aproximadamente 150 cabeças de gado. Mas como Jobson não transporta só as cabeças, e sim os bois inteiros, consegue levar uns 8 animais bem apertadinhos no Kombinhão. Guerreiro da estrada, Jobson enfrenta chuva, vento e buraco em sua jornada pelo país.

Saindo de Pato Preto ele pega a BR-143,5 em direção ao Estado do Goiás. A caçamba da Kombi está carregada de bois de um fazendeiro local e amigo seu, o seu Jailson, que inclusive o presenteou um dia com uma viola caipira, um presente que Jobson sempre leva consigo na estrada. O mineiro faz o transporte dos animais durante boa parte da manhã até o seu destino, em Goiópolis, pequeno munícipio goiano. Chegando lá, ele descarrega os animais e recebe uma carga de várias sacas de sorgo (um desses grãos chiques que pobre não come, como soja e grão-de-bico) que serão transportadas para o Norte, precisamente até o Acre. Durante a longa viagem para tais bandas inóspitas do Brasil, Jobson para aqui e ali para apreciar um gole de seu açúcar cafeinado e tocar uma moda em sua viola. Com dedos ágeis, ele executa desde os clássicos de Zé Pobre & Miserável até o sertanejo universitário dos cantores fanhos Bruno e Barreto. Mas ele logo volta à estrada, pois é preciso.

Já em terras acrianas, Jobson deixa o sorgo com fazendeiros paleolíticos de fala truncada e corpos atarracados. Para dar continuidade em seu trabalho, tem a Kombi carregada com caixas cheias de ferramentas de pedra e armas brancas primitivas. Esse carregamento ele leva até o Amazonas, para entregar a povos indígenas da etnia Embaxó Daterra, uma tribo de habitações subterrâneas. Com os indígenas, Jobson se abastece de muitos grãos de açaí, fruta bastante consumida por playboys de academias do Sul e Sudeste, os seus destinos finais. Porém, antes de rumar ao sul, ele passa pelo Nordeste, cruzando cinco dos nove estados existentes nessa área subdesenvolvida do Brasil. Em cada um desses estados ele pega passageiros que estão migrando a procura de trabalho nas metrópoles.

Com o Kombinhão cheio de açaí e nordestino, ele vai desembarcando a carga aos poucos à medida que avança para o sul do país, até que chega no Rio Grande do Sul, onde aproveita para ir no Paraguai e comprar alguma muamba, que será revendida logo em seguida. Por fim ele volta para casa após mais este dia cansativo de trabalho em 3 empregos (escritor, caminhoneiro e vendedor de muamba), aparentemente pouco, mas deve ser levada em consideração a canseira que dá cruzar um Brasil inteiro em menos de 24 horas. Assim é Jobson, audacioso, indo aonde nenhuma Adriana jamais Esteves.